OUTROS BONS CAMARADAS #GABRIEL PARDAL

Gabriel Pardal é ator, escritor, apresentador, perturbador, sequestrador, Anador, quem não for, curtidor, pelo amor… E eu gosto de descrevê-lo sempre assim, do jeito que ele cria, em propulsão acelerada. Pardal vive no Rio, onde estudou na CAL. Antes disso, já esteve em peça e projetos culturais na Bahia, onde se formou em Publicidade. Sempre inquieto, já rodou longos trechos do país de carona (uma experiência pouco comentada). Atualmente, faz o que sempre fez: cria. Mantém na internet um punhado de projetos que revelam sua vontade de sempre estar fazendo.

Essa conversa foi tida no GTalk nos dias 01 e 02 de agosto e faz parte do  projeto Outros Bons Camaradas.

Bezerra: Ser artista ainda é estar à margem?

Gab: Ser artista é uma coisa que nem sei se existe mais. Estar à margem também. Mas, de certa forma, produzir conteúdo específico é não se importar com olhares externos. Mas ser artista.. é bom que todos sejam. Não deve existir isso: “Profissão: artista”. Passei?

Bezerra: Você acha que a internet contribuiu pra que os novos artistas pudessem integrar diversas linguagens?

Gab: acho que são poucos que estão sabendo integrar as linguagens na internet. A maior parte usa a internet como divulgação de criações reais. Quando digo ‘real’, quero dizer, que não é virtual. [É gente] que não usa a internet como plataforma, como um pixador usa uma parede como plataforma

Bezerra: E o que você tem feito? Fale um pouco da existência dessa integração de linguagens no seu próprio trabalho.

Gab: a internet é nosso woodstock, mano. Pô! Aqui é o espaço do, digamos, ‘ tudo é possível’. De repente você tem todo o acervo cultural da humanidade no seu quarto

Bezerra: Vale a pena afirmar se isso é bom ou ruim?

Gab: É bom e é ruim. Como tudo. Percebi que, além disso, esse espaço possibilita a liberdade. Aliás, ele só existe com a liberdade. Você pode filmar, escrever, tocar qualquer coisa e de repente essa coisa passa a existir graças à internet. ela encontra uma comunicação. Existia uma barreira de produção que foi derrubada. mas não só isso, barreira de tabus – do que é permitido ou não ser feito – barreira de qualidade, de tamanho, de formato… Desculpa por tanta coisa.

Bezerra: Falando em “tanta coisa”, você acha que viver num período de TANTA informação é mais proveitoso pra quem cria ou é mais complicado?

Gab: Varia. No meu caso o processo vem do caos. Eu preciso de uma certa confusão, bagunça, sujeira, porque minha cabeça funciona tentando mexer nessa bagunça, mudar as coisas de lugar, tirar, pôr, arrumar, etc. Se essa bagunça não existir, eu não crio nada. Não consigo escrever no meio do mato.

Bezerra: Existe algum momento em que você precisa se afastar da “bagunça”?

Gab: Também. Escrever, pintar, compor, também pode ser uma vontade de me afastar da bagunça. Enquanto crio, eu a localizo e a reconstruo. Daí pronto. Não existe mais bagunça. Existe um poema.

Bezerra: Poema tem limite?

Gab: pelamordedeusNO

Bezerra: 🙂 Assistiu “Almas à Venda?”

Gab: No. Muito bom. Vc já viu?

Bezerra: Também não. Queria saber sua impressão.

Gab: e INCEPTION?

Bezerra: Será insano.

Gab: Eu não sei direito o que é. É complicado, né? o trailer embanana tudo. Tô curioso.

Bezerra: Você é ator, escritor, blogueiro, agitador. Já colocou-se à frente de projetos na internet, no palco e em publicações. O que motiva essa incursão por várias frentes?

Gab: Porra, acho isso tudo uma coisa só. Pq tudo vem do mesmo lugar: do meu olhar, da minha percepção sobre as coisas e o mundo.Eu olho para um papel em branco e tenho a ideia de um texto. Olho para um palco e tenho a ideia de uma peça. Isso acontece em outras plataformas também. Olho para uma roupa e tenho ideia de trocar os botões. Olho para um maço de cigarros e penso como seria melhor desenhado. Essa mistura pra mim é natural. Talvez porque seja dessa geração nova, porque cresci com essa mistura. Não sei porquê. Só sei como. E ‘como’ é isso: o começo de tudo, uma ideia que se tem. Se tiver um violão na mão e eu achar que poderia funcionar uma música, então é a música. Não tem muito de escolha não.. de “agora vou escrever uma peça”. É isso.

Bill, na verdade, tudo é poesia. O Bala, Paralelepípedos, Esquadros, meu Twitter, meu Facebook, e mais… Essa conversa contigo, ou quando saio para beber com os amigos… estou sempre neste estado de observação e criação. Tudo é uma forma de experimentar a poesia em lugares diferentes.

Meu Twitter, por exemplo, só me serve pra isso: pra escrever. O Facebook também. E se eu tivesse um apartamento esse apartamento seria poesia também.

Bezerra: Você acha que a internet virou um atelier onde se cria e ao mesmo tempo uma galeria que expõe o que se cria?

Gab: Totalmente. É a grande galeria mundial. Você pode expor os trabalhos e ver os trabalhos dos amigos.

Bezerra: Hoje você vive e atua no Rio. Você acha que a Bahia lhe deu régua e compasso?

Gab: A Bahia definiu meu processo. Meu processo criativo é completamente baiano. Entenda-se o que quiser por isso.

Bezerra: Na medida em que o ator interpreta o texto (o roteiro em palavras); e o verbaliza em cena (também com a palavra); é de se esperar que todo ator se dedique à compreensão e à criação dos textos, da palavra?

Gab: Ah, que massa que você perguntou isso. O ator TEM que ser um leitor voraz. tem que ser um cara que lê de tudo, desde os clássicos, passando pelos autores contemporâneos, até os diários informativos, os jornais. Ele precisa ler porque trabalha com sentimentos, sensações e emoções, tudo num nível intelectual específico. Quero dizer, contemplar uma obra de arte é uma atividade intelectual, porque você usa de toda a sua bagagem para ouvir uma música por exemplo. E o ator tem que se instrumentalizar de todas as formas possíveis para poder transmitir essa música. Um ator que não lê não sabe falar. E isso não vale só para ator não: para músico, artista plástico, desenhista. Não consigo compreender para onde estão indo esses que não estudam, que não pesquisam, que não se acrescentam de coisas e coisas e coisas. Eu vivo falando isso para meus amigos 🙂

Bezerra: Se há 1 ano você pudesse saber de tudo que sabe hoje, que conselho você se daria?

Gab: Ah, eu faria uma pergunta: “Me conta aí, onde você está?”

Bezerra: 🙂 Dá pra dizer que ser artistas é uma escolha?

Gab: Não. No entanto, é uma coisa inibida. Tanta gente, tanta gente, se todos tivessem a audácia de estar num estado criativo quase 100% do seu tempo, como o mundo seria mais divertido! Nem o dinheiro existiria. Muito menos shopping center, que é um lugar da ‘não criação’. Eu tenho vontade de pixar shopping center. Fico puto com esses pixadores que ao invés de pixar shopping center, ficam pixando a casa dos outros. [e olhe que nunca pixei nada]

Bezerra: É um templo estranho. [o shopping] Você já fez performance em shopping?

Gab: Não. mas tenho uns amigos que fizeram. Muito lindo. Entraram vendados no shopping. O pessoal do Brecha Coletivo, daqui do Rio.

Bezerra: O Rio vive mais a produção cultural da cidade ou apenas consegue exibir melhor aquilo que é produzido?

Gab: Nunca é perfeito. O que mais discutimos nos bares atualmente é o fim da sede da Companhia dos Atores. Como que pode, uma companhia que sempre foi financiada pela Petrobrás, e mais que isso, uma das companhias mais importantes do país, não ter fomento financeiro do governo para poder manter sua base?

Bezerra: E até que ponto a presença da indústria cultural, representada pelas revistas, pela TV, e pela mídia como um todo, privilegia a arte feita em SP e Rio de Janeiro?

Gab: Realmente acredito que exista um Bob Dylan no interior do Tocantins. A produção é parte do objeto artístico. Não adianta ser o gênio da pintura com lápis de cor se esses quadros não forem expostos, não chegar ao interesse das pessoas. para isso é preciso invadir um exército com música, teatro, pinturas. Eu meio que corri da resposta dessa pergunta porque eu mesmo vim da Bahia pro Rio, assim como tantos outros, e ainda estou tentando entender porque aqui. E porque o Caetano, que diz amar tanto a Bahia, permanece aqui. Cada dia que passa vou entendendo melhor ele e todos os outros. Aqui rola uma cena, um mutirão, um grupo grande de pessoas fazendo. É a natureza, né? Quanto mais formiga, maior o formigueiro.

Bezerra: 🙂 Retomando aquilo que você falou sobre a necessidade de colocar o trabalho artístico à mostra. Você acredita então que o efeito da arte esteja no olhar do outro? É preciso o ‘apreciar’ do outro pra algo ser chamado de arte?

Gab: Só acredito nisso. Eu me interesso absolutamente por comunicar.

Bezerra: Sim.

Gab: Digo mais: eu me interesso absurdamente por comunicar. Porque, ao mesmo tempo que quero ser Roberto Carlos, eu quero ser Hermeto Pascoal. Mas é isso, a arte só se completa com o olhar o espectador.

Bezerra: Será que o fato de sua preocupação primária ser a ‘comunicação’, explica o fato de você adotar várias linguagens?

Gab: O artista é um ser muito incompleto [e talvez por isso crie coisas] para fazer nascer um objeto pronto.

Bezerra: Uma visão curiosa.

Gab: Essa questão das linguagens também pode ser interpretada dessa forma. Atualmente, como eu disse, meu interesse é em escrever poesias em todas as plataformas possíveis, e ver como a poesia interage naquela plataforma e como a plataforma interfere na poesia. Estou escrevendo um livro, digamos, no Twitter.

Bezerra: Me fale disso.

Gab: É isso. Pra mim, a coisa mais importante é escrever. Tudo nasce dali. Da forma da letra, do ajuntamento das letras para formar a palavra. Da reunião de palavras para formar uma frase. Do raciocínio das frases para formar um sentido. Daí, se pinto, se toco, se canto, se interpreto… é uma extensão daquele momento inicial: da palavra no papel. E a gente vai escrevendo onde dá. Carteiras de colégio, porta de banheiro público, moleskines, na mão, no facebook, no twitter.

12:06 é isso?

12:07 eu: A gente não criou isso juntos (AQUI), mas é um assunto recorrente. Queria que você falasse do post, sobre o trabalho e sobre como você enxerga essa busca em equilibrar a vida de arte e a vida de emprego-rotina?

Gab: esse papo aí, Bill, é um papo infinito né?

Bezerra: Tem sido né. Falamos muito disso já.

Gab: Quantas vezes estivemos em boteco bebendo e falando sobre isso. Me dá a impressão que é uma questão geracional até.

Bezerra: Dinheiro gera arte? Precisamos dele? (Eu gostaria de dizer “Sim” e depois dizer “E eu tenho um monte”)

Gab: hahahaha

Bezerra: Mas desculpe. Interrompi você. Prossiga com seu raciocínio.

Gab: Então… Acho que faz parte, fazer trabalhos aqui e fazer um trabalho mais interessante em casa. Isso vai somando na sua cabeça e de certa forma define como você vai criar em casa. Sou louco para ver uma peça escrita por um dentista, ou um quadro pintado pelos esquimós que trabalham despedaçando gelo. Quantas cores há no branco? Portanto, eu acho que viver eternamente no ócio criativo deve ser muito chato. Sempre que a gente conversa sobre isso tenho a impressão que é impossível aplacar o desejo de ser um pintor e morar em Barcelona e comer a Penélope Cruz e a Scarlett Johansson.

Bezerra:É uma proeza conseguir isso.

Gab: é… 😛

querido

vc devia editar essa entrevista

corrigir as frases

Bezerra: Fale do Nomedacouca. Você estão com o projeto Bala e ele permite que você tenha contato com muitas pessoas. Qual é a importância dessas conexões pra existência de uma cena forte?

Gab: o Bala é um documentário sobre processos criativos de artistas que tem um trabalho autoral. Então não é todo tipo de ator, nem todo tipo de músico, nem todo tipo de escritor. A ideia é investigar como, onde e porque fazer o que se faz, se há tanto por fazer na África. Essa é a ideia principal. Agora, se aproximamos as pessoas ou se fazemos um mapeamento, ou se estabelecemos um grupo, isso é consequência. Eu acho legal se for tudo isso. Principalmente porque tenho conhecido pessoas incríveis e tenho aprendido muito ouvindo elas falarem.

Bezerra: Então vamoquevamo.

Gab: vamoquevamo é legal. Porque dentro de ‘vamoquevamo’ eu sempre enxergo: amo que amo.

Bezerra: Então viva! Acabou.

Gab: ahhhh. Diga que amanhã tem mais 🙂

Foto de Pardal: Camilo Lobo.

3 pensamentos sobre “OUTROS BONS CAMARADAS #GABRIEL PARDAL

  1. Adorei a entrevista. Como sempre quando leio/assisto/escuto qualquer coisa sua (de vocês) fico em êxtase, como se estivesse experimentando algo 100% novo. Fico babando com a capacidade criativa e a linguagem fora comum, fora do óbvio.

  2. Quem melhor que o artista para definir o que é arte?
    Também sei que existe um Bob Dylan por aí em algum lugar e ainda espero o dia em que todas as pessoas reconheçam que estamos aqui para criar alguma coisa, ainda que nas horas vagas. E acho que isso já está acontecendo. Como já dizia uma pintura rupestre que vi por aí “Antes Arte do que nunca”!
    Mas será que a arte precisa realmente do olhar do outro? Ela não existe por si só? Essa discussão é daquelas sem fim né!?
    Parabéns pelo seu trabalho, “outro bom camarada”!
    Show de bola Bill!

  3. Muito bom pescar de cá essas interações, camaradas: extrapolando o que quer que seja uma entrevista, para além da apresentação. Pardal em plena traquinagem!
    Abraços

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